Will Jardim

Autenticidade na era da IA: por que Dove e Anthropic cresceram vendendo honestidade (e a Coca-Cola apanhou dois Natais seguidos)

Por Will Jardim · Publicado em · 7 min de leitura

Dois rostos de manequim frente a frente, um azul e um branco, em referência ao contraste entre imagem artificial e humana.
Foto: Steve A Johnson/Unsplash

Num mundo em que qualquer marca consegue criar campanha, copiar concorrente e escalar conteúdo em minutos com IA, as campanhas mais elogiadas do primeiro semestre de 2026 fizeram o oposto: venderam honestidade. É essa a conclusão do balanço do Marketing Dive sobre as melhores campanhas do semestre, que reúne Dove, Anthropic, Aerie e Burger King. A Dove mantém desde 2024 o compromisso público de nunca usar IA para representar mulheres reais. A Anthropic, uma empresa de IA, virou o case do Super Bowl prometendo o que o Claude não vai fazer. E a Coca-Cola, que insistiu em anúncios de Natal gerados por IA, apanhou do público dois anos seguidos.

Neste artigo, eu destrincho o que essas campanhas têm em comum, o caso da Coca-Cola (mais interessante do que parece), os números da desconfiança do consumidor e como transformar autenticidade em vantagem competitiva.

O que o relatório do Marketing Dive mostrou

O padrão do semestre: em meio a feeds falsos, deepfakes e conteúdo sintético em escala, as marcas que se destacaram foram as que assumiram alguma verdade desconfortável. O Burger King admitiu publicamente o declínio da marca antes de relançá-la. A Dove transformou as primeiras 50 avaliações sem filtro do Reddit em peças de campanha, elogio ou crítica. A Aerie rejeitou conteúdo gerado por IA e escalou um programa de criadoras reais. E a Anthropic zombou dos chatbots com anúncios para posicionar o Claude como o assistente que não vai te empurrar publicidade.

Não foi quem usou mais tecnologia que ganhou o semestre. Foi quem teve coragem de mostrar o que era de verdade.

Os números da autenticidade

DadoNúmeroFonte
Compromisso da Dove de nunca usar IA para representar mulheres reaisAnunciado em abril de 2024, nos 20 anos de Real BeautyMarketing Dive
Campanha "Dove r/eal reviews" (avaliações sem filtro do Reddit)6 Leões em CannesMarketing Dive
Claude na App Store dos EUA após o Super Bowl 2026Do 41º para o 7º lugar, com alta de 11% em usuários ativos diáriosCNBC
Vendas comparáveis do Burger King após assumir o declínio da marca+5,8% no 1º trimestre de 2026Marketing Dive
Consumidores que desconfiam de resultados de busca gerados por IA53%Gartner

Sobre o último dado, um ajuste de honestidade: circula por aí que "60% dos consumidores desconfiam de anúncios gerados por IA". Não encontrei fonte confiável para esse número. O verificável é a pesquisa da Gartner: 53% desconfiam de resultados de busca movidos a IA. A direção é a mesma, o número certo é esse.

O paradoxo da Anthropic: uma empresa de IA vendendo limites

A Anthropic estreou no Super Bowl de 2026 com a campanha "Ads are coming to AI. But not to Claude.": quatro filmes em que um chatbot com anúncios descarrilha conversas íntimas para empurrar produtos. Uma empresa de inteligência artificial construiu a campanha inteira sobre um limite autoimposto, aquilo que o próprio produto se recusa a fazer. Resultado: o app do Claude saltou do 41º para o 7º lugar na App Store americana, os usuários ativos diários cresceram 11% e a peça levou o Super Clio de comercial mais criativo do jogo. Num mercado de promessas infladas, quem traça limites com clareza vira referência de confiança. Esse é o paradoxo que define 2026.

O caso Coca-Cola: o roteiro que os fatos corrigiram

Aqui eu preciso corrigir uma narrativa que circula, porque a versão real é mais interessante. A Coca-Cola não "voltou atrás na IA". Ela refez seu clássico de Natal "Holidays Are Coming" com IA generativa em 2024, foi massacrada, e dobrou a aposta em 2025 com mais anúncios gerados por IA, colhendo nova onda de críticas e pedidos de boicote.

O detalhe revelador: quando a Coca-Cola apareceu na lista das campanhas mais elogiadas de 2026, não foi por IA. Foi com "Drink It In America", releitura do hino "Hilltop" de 1971, com coral gospel e gente de verdade. A mesma marca, no mesmo período, produziu o case negativo de conteúdo sintético e o case positivo de história humana. Não existe experimento mais limpo: o problema não é a Coca-Cola, é o que ela escolhe mostrar.

O padrão que eu vejo como estrategista

O pulo do gato dessas marcas foi entender uma coisa simples: pessoas não sentem empatia com o que é perfeito. Sentem empatia com o que é real, com o que parece feito por alguém que pensa como elas. E existe uma lei de mercado da qual ninguém escapa: quando uma ferramenta fica disponível para todo mundo, ela satura, e o valor migra de volta para o que só um ser humano entrega. Foi assim com o e-mail marketing, com o tráfego pago, e está acontecendo agora com o conteúdo gerado por IA.

Branding não é sobre parecer profissional. É sobre ser reconhecível. IA faz o profissional em minutos; o reconhecível, só a sua identidade constrói.

Você já entrou no perfil de uma marca e não conseguiu identificar quem está por trás? Post perfeito, arte alinhada, copy bem escrita, zero personalidade. Você lê e não sente nada. Não compartilha, não comenta, não volta. É isso que está matando marcas que poderiam estar crescendo: produzem volume e abrem mão de voz. É o mecanismo que eu mostrei na análise sobre marca e identidade com Nike, Apple e a própria Coca-Cola: o logo é só o lembrete de uma identidade que precisa existir antes dele.

O que a tese não conta

Três ressalvas honestas. Primeiro: os anúncios de IA da Coca-Cola apanharam nas redes, mas em testes de resposta emocional com o público geral a System1 registrou pontuações altas para a peça; a revolta é mais barulhenta na bolha de quem discute IA. Segundo: Dove, Aerie e Anthropic não são antitecnologia; usam IA em operação e produto. O que elas não terceirizam é a identidade. Terceiro: o dado da Gartner mede desconfiança em busca com IA, não em anúncios. A leitura direcional é sólida; o número exato para anúncios ainda não tem pesquisa definitiva.

Como aplicar na sua marca

  1. Faça o teste do logo coberto. Pegue seus últimos 10 posts, cubra o logo e pergunte: alguém reconheceria que é você? Se não, você não tem voz, tem template. Comece definindo 3 opiniões que a sua marca defende publicamente.
  2. Decida onde a IA entra e onde ela nunca entra. Use IA para volume, pesquisa e operação, mas escreva um limite explícito, no estilo Dove: o que a sua marca nunca vai automatizar? Esse limite, comunicado publicamente, vira ativo de confiança.
  3. Assuma uma verdade desconfortável por trimestre. As campanhas vencedoras de 2026 admitiram declínio, mostraram avaliações negativas, expuseram limites do produto. Qual verdade sobre o seu negócio a concorrência não teria coragem de publicar?

E me conta: se você tirasse o logo da sua marca agora, alguém reconheceria que é você?

Perguntas frequentes

O que a Dove prometeu sobre o uso de IA?

A Dove se comprometeu publicamente, em abril de 2024, a nunca usar inteligência artificial para criar ou distorcer imagens de mulheres reais em sua publicidade, nos 20 anos da campanha Real Beauty. O anúncio veio com o filme "The Code" e fez da Dove a primeira grande marca de beleza a assumir esse compromisso.

A Coca-Cola parou de usar IA nos anúncios?

Não. A Coca-Cola lançou anúncios de Natal gerados por IA em 2024 e novamente em 2025, e foi criticada nas duas ocasiões. Já a campanha da marca mais elogiada no primeiro semestre de 2026, "Drink It In America", foi feita com pessoas reais.

O que foi a campanha da Anthropic no Super Bowl 2026?

Foi a estreia da Anthropic no Super Bowl, com o mote "Ads are coming to AI. But not to Claude.": quatro filmes satirizando chatbots que interrompem conversas íntimas com publicidade. Após o jogo, o app do Claude subiu do 41º para o 7º lugar na App Store dos EUA e os usuários ativos diários cresceram 11%.

Autenticidade significa não usar IA?

Não. Significa não terceirizar a identidade para a IA. As marcas premiadas em 2026 usam tecnologia em operação e produção, mas mantêm humanos (com opinião, história e ponto de vista) no centro da comunicação. A regra prática: IA para escalar, identidade para ser lembrado.