Will Jardim

Ghost: como a marca de suplementos vendida por quase US$ 1 bilhão cresceu mirando o público que o fitness ignorava

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

A Ghost, marca americana de suplementos e energéticos fundada em 2016, foi comprada pela Keurig Dr Pepper por US$ 990 milhões por 60% do negócio, em acordo anunciado em outubro de 2024, com os 40% restantes previstos para 2028. Uma marca de suplemento avaliada na casa do bilhão sem embaixador com 3% de gordura corporal, sem shape absurdo na campanha, sem ninguém jurando que ficou daquele jeito tomando whey. Enquanto o mercado inteiro pagava fortunas para fisiculturistas, a Ghost foi na direção oposta: mirou o público que o fitness sempre ignorou.

Neste artigo, eu destrincho o caso, os números da aquisição e o mecanismo de posicionamento que transformou o "público invisível" no ativo mais valioso da marca.

O que é a Ghost e por que ela nasceu para o "fantasma"

A Ghost foi criada em 2016 por Dan Lourenco e Ryan Hughes com a ambição declarada de ser a primeira marca "lifestyle" de nutrição esportiva. A pergunta fundadora era simples: quem representa as pessoas que se sentem invisíveis no fitness? Quem treina, mas também curte pizza. Quem não vai para campeonato nenhum. Quem existe aos milhões, mas nunca apareceu em um anúncio de suplemento.

O nome GHOST veio exatamente disso: o fantasma, quem ninguém vê. E o mantra da marca é literalmente "Be Seen": seja visto.

Em vez de contratar atleta de elite, a marca fez collabs de sabor com gigantes da cultura pop: Oreo, Sour Patch Kids, Warheads, Chips Ahoy, Sonic. A parceria com a Sour Patch Kids, em 2018, foi uma das primeiras collabs autênticas de sabor da história da indústria de suplementos. O resultado: suplemento virou produto de cultura pop. O cliente não compra proteína, compra identidade.

Os números do caso Ghost

DadoNúmeroFonte
Valor pago pela Keurig Dr Pepper por 60% da GhostUS$ 990 milhões (anúncio em 24/10/2024)Keurig Dr Pepper
Compra dos 40% restantesPrevista para 2028, com base no desempenho de 2027Food Dive
Fundação da marca2016, por Dan Lourenco e Ryan HughesForbes
Primeira grande collab de sabor (Sour Patch Kids)2018, pioneira na indústria de suplementosPricePlow

Por que mirar o público ignorado funciona

Aqui está o mecanismo que me interessa como estrategista. Toda a categoria de suplementos competia pelo mesmo território: o corpo perfeito, o atleta de elite, a promessa de shape. Quando todo mundo disputa o mesmo público com o mesmo argumento, a briga vira leilão de patrocínio, e quem tem mais caixa vence.

A Ghost trocou a pergunta. Em vez de "como parecer mais fitness que os concorrentes", perguntou "quem essa indústria inteira está deixando de fora". E construiu tudo (nome, mantra, sabores, comunicação) para esse público, com uma linguagem que ele já amava: a do doce da infância, do videogame, da cultura pop.

O público ignorado é sempre o mais leal. Porque ninguém nunca fez nada por ele.

O padrão que eu vejo se repetir é este: quando uma marca é a primeira a enxergar um público, ela não ganha clientes, ganha defensores. Quem passou a vida invisível para uma indústria não troca de marca por desconto de 10%. A lealdade nasce do reconhecimento, não da comparação de rótulo.

O que a história não conta

Três ressalvas honestas. Primeiro, a Ghost não é "anti-marketing de gente sarada" no sentido absoluto: ela sempre trabalhou com influenciadores e criadores do universo fitness e gamer. O que ela evitou foi o playbook do fisiculturista profissional como argumento de venda. Segundo, o valor de US$ 990 milhões comprou principalmente a operação de energéticos, o motor de crescimento recente da marca, não só os potes de whey. Terceiro, a jogada teve custo: depois da aquisição, a Mondelez (dona de Oreo e Sour Patch Kids) encerrou a parceria de sete anos e as collabs saíram de linha. Construir a marca sobre licenças alheias gera atenção, mas cria dependência que uma canetada de contrato pode desmontar. A base que ficou de pé foi justamente a que a Ghost possui: o público.

Como encontrar o público ignorado da sua categoria

Três perguntas-teste para aplicar o mecanismo da Ghost na sua marca:

  1. Quem compra da sua categoria se sentindo excluído dela? Olhe para quem usa o produto, mas não se reconhece em nenhuma campanha do mercado. Esse desencaixe entre quem compra e quem aparece na propaganda é o espaço de posicionamento mais barato que existe.
  2. Que linguagem esse público já ama fora da sua categoria? A Ghost não inventou uma estética: emprestou a da cultura pop que o público dela já consumia. Pergunte de quais universos (música, games, comida, humor) o seu público ignorado já faz parte, e fale de lá.
  3. O que você constrói que é seu, e o que é alugado? Collab, licença e plataforma emprestada aceleram, mas podem sumir com um contrato. Garanta que a relação com o público (comunidade, dados, identidade da marca) fique em ativo próprio, não no nome dos outros.

Perguntas frequentes

O que é a Ghost?

A Ghost é uma marca americana de suplementos e bebidas energéticas fundada em 2016 por Dan Lourenco e Ryan Hughes, posicionada como a primeira marca "lifestyle" de nutrição esportiva. Em outubro de 2024, a Keurig Dr Pepper anunciou a compra de 60% da empresa por US$ 990 milhões, com opção sobre os 40% restantes em 2028.

Qual foi a estratégia de marketing da Ghost?

Em vez de pagar fisiculturistas e vender a estética do corpo perfeito, a Ghost mirou o público que se sentia invisível no fitness e falou com ele pela cultura pop: collabs de sabor com Oreo, Sour Patch Kids, Warheads e Sonic, além do mantra "Be Seen" (seja visto). O suplemento virou produto de identidade, não de performance.

Por que as collabs da Ghost com Oreo e Sour Patch Kids acabaram?

Após a aquisição pela Keurig Dr Pepper, a Mondelez, dona das marcas licenciadas, encerrou a parceria de sete anos com a Ghost, e os sabores licenciados saíram de linha. O caso virou lição dupla: a collab construiu a marca, mas mostrou o risco de apoiar o crescimento em licenças que pertencem a terceiros.

O que a Ghost ensina sobre posicionamento de marca?

Que existe mais valor em enxergar um público ignorado do que em disputar o público óbvio com mais verba. Quem é o primeiro a representar um grupo invisível ganha defensores, não apenas clientes, porque a lealdade nasce do reconhecimento.

E a sua marca representa quem, de verdade?