Will Jardim

Gillette: como uma marca vira sinônimo do produto e chega a 70% do mercado global

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 7 min de leitura

A Gillette, fundada em 1901 pelo americano King Camp Gillette, construiu uma marca tão forte que o nome da empresa virou o nome do produto: no Brasil, "gilete" está no dicionário como substantivo comum. A marca chegou a controlar 70% do mercado global de lâminas e aparelhos de barbear e foi comprada pela P&G em 2005 por US$ 57 bilhões, uma das maiores aquisições da história do consumo. O motor disso tudo não foi preço. Foi identidade.

Neste artigo, eu destrincho o caso, os números que sustentam essa dominância e o mecanismo de posicionamento que separa quem negocia desconto de quem é escolhido automaticamente.

O caso Gillette: quando a marca vira o nome do produto

Você já foi comprar um aparelho de barbear e pediu uma "Gillette", mesmo que a marca na gôndola fosse outra? Pois é. Isso não é coincidência. É um dos exemplos mais claros de genericização de marca que o Brasil já viu: o fenômeno em que o nome de uma empresa substitui o nome da categoria inteira.

A palavra "gilete" consta nos dicionários brasileiros como substantivo feminino, definida como lâmina ou aparelho de barbear, com origem registrada na marca Gillette. Ninguém pede "um aparelho de barbear com lâmina descartável, por favor". As pessoas pedem uma gilete. O nome próprio virou nome comum.

Isso não acontece por acaso e não acontece rápido. Acontece quando uma marca ocupa um espaço tão específico e tão consistente na cabeça do consumidor que ela deixa de ser uma opção entre várias e vira o próprio critério de escolha. A Gillette repetiu, reforçou e sustentou a associação com um único atributo, precisão no barbear, por décadas, até virar automatismo na cabeça de quem compra.

Os números da dominância

DadoNúmeroFonte
Fundação da empresa por King Camp Gillette1901Gillette (site oficial)
Participação no mercado global de lâminas e aparelhos (2016)70%Stratechery
Valor pago pela P&G na aquisição (2005)US$ 57 bilhõesCNN Money
Valor pago pela Unilever pelo rival Dollar Shave Club (2016)US$ 1 bilhãoForbes
"Gilete" como substantivo comum no português brasileiroregistrada em dicionárioDicio

Repare na distância entre os dois valores de aquisição: a marca construída em cima de identidade valeu US$ 57 bilhões. O desafiante construído em cima de preço e conveniência, US$ 1 bilhão. Os dois números contam a mesma história por ângulos opostos.

Competir por identidade, não por preço

Aqui está o ponto que me interessa como estrategista. A maioria das empresas compete por preço: olha para o concorrente, vê o valor que ele cobra e decide cobrar um pouco menos. É a lógica mais comum do mercado, e é também a que mais aprisiona um negócio, porque sempre vai existir alguém disposto a cobrar ainda mais barato amanhã.

A Gillette decidiu competir por outra coisa. Enfrentou a Bic na era dos descartáveis, viu a Unilever entrar no jogo e, mesmo assim, seguiu fazendo o cliente pagar múltiplas vezes mais por lâminas que custam uma fração disso para produzir. E o cliente pagou, porque não estava comprando aço: estava comprando a certeza embutida em um nome.

O modelo de negócio famoso da marca, aparelho acessível e reposição cara, é a mesma lógica da impressora e do cartucho. Mas ele só funciona porque a confiança vem antes. Ninguém aceita ficar preso a um sistema de reposição se não confia profundamente na marca que está por trás dele. Primeiro vem a identidade, sólida o suficiente para gerar confiança. Depois vem o modelo, que monetiza essa confiança ano após ano.

A sua marca não é o que você fala sobre sua empresa. É o que as pessoas falam quando você não está na sala.

O padrão que eu vejo se repetir em toda marca que atinge esse nível é o mesmo: um atributo único, repetido com consistência brutal, por tempo suficiente para o mercado parar de discutir. Nenhum anúncio isolado faz isso. Nenhuma campanha de um único ano consegue.

O que os números não contam

Honestidade intelectual em dois pontos. Primeiro: a história de que a Gillette inventou o modelo "aparelho barato, lâmina cara" é um mito. Uma pesquisa da Universidade de Chicago mostrou que, enquanto teve patentes (até 1921), a empresa vendia o aparelho caro. Ela só migrou para o modelo de reposição depois que as patentes expiraram e os concorrentes forçaram o jogo. Ou seja: o que sustentou a empresa nunca foi a esperteza do modelo. Foi a força da marca, que sobreviveu inclusive à perda das patentes.

Segundo: dominância não é eterna. A fatia de 70% citada acima é de 2016. Nos anos seguintes, o Dollar Shave Club e a Harry's corroeram parte relevante do mercado americano vendendo assinatura barata pela internet. A Gillette segue líder, mas o caso prova as duas faces da mesma moeda: identidade constrói um império, e um império que para de renovar a própria relevância abre espaço para o desafiante.

Como aplicar a lógica da Gillette na sua marca

Quando sua marca vira nome, você parou de ser empresa e virou referência. Três perguntas para testar se você está construindo isso ou só vendendo:

  1. Qual atributo a sua marca ocupa sozinha? Não um produto, um atributo: um adjetivo, uma sensação, uma palavra que, quando o cliente pensa nela, pensa automaticamente em você. A Gillette escolheu precisão e não saiu de lá por um século.
  2. Você aguenta repetir por anos? Genericização é fruto de consistência acumulada, não de campanha genial. Se a sua comunicação muda de promessa a cada trimestre, você recomeça do zero a cada trimestre.
  3. Seu modelo de negócio monetiza a confiança que a marca já criou? Recorrência, reposição e assinatura só funcionam depois que a identidade existe. Copiar o modelo sem construir a marca é cobrar o preço da Gillette com a confiança de um desconhecido.

Se hoje ninguém usa o nome da sua empresa para descrever o que você vende, tudo bem: quase ninguém chega lá. Mas se ninguém associa a sua marca a atributo nenhum, o problema não está no seu produto nem no seu preço. Está em quanta consistência você ainda não dedicou a construir esse único atributo. Qual é a palavra que você quer ocupar?

Perguntas frequentes

Por que "gilete" virou sinônimo de aparelho de barbear?

Porque a marca Gillette, fundada em 1901, dominou a categoria com tanta consistência que o nome próprio virou nome comum: os dicionários brasileiros registram "gilete" como substantivo feminino para lâmina ou aparelho de barbear. Esse fenômeno se chama genericização de marca e é o grau máximo de posicionamento: a marca substitui a categoria.

Quanto a P&G pagou pela Gillette?

A P&G anunciou a compra da Gillette em janeiro de 2005 por US$ 57 bilhões, em uma das maiores aquisições da história dos bens de consumo. O valor refletia não só as fábricas e patentes, mas principalmente o ativo intangível: uma marca que chegou a controlar 70% do mercado global de lâminas e aparelhos.

A Gillette inventou o modelo de "aparelho barato, lâmina cara"?

Não. Pesquisa da Universidade de Chicago mostrou que, durante a vigência das patentes (até 1921), a Gillette vendia o aparelho caro. O modelo de reposição barata na entrada e margem nas lâminas só veio depois, empurrado pela concorrência. A vantagem real da empresa sempre foi a marca, não o truque de precificação.

O que é genericização de marca?

É quando o nome de uma marca passa a designar a categoria inteira de produto, como gilete, xerox e cotonete no Brasil. Ela acontece quando uma marca lidera a categoria com consistência por tempo suficiente para o público adotar o nome como palavra comum. É sinal de dominância de posicionamento, embora juridicamente crie o risco de diluição da marca registrada.