Will Jardim

Health Ticket: a campanha que trocou 20 agachamentos por passagem de ônibus na Romênia e viralizou no mundo

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

Em Cluj-Napoca, na Romênia, uma cabine instalada num ponto de ônibus trocava exercício por passagem: quem fizesse 20 agachamentos em até 2 minutos, contados por câmera, ganhava um bilhete de transporte público. A campanha se chama Health Ticket (Biletul de Sănătate, o Bilhete da Saúde), foi criada pelo Sports Festival, o maior evento multiesportivo do país, e rendeu mais de 2,3 milhões de agachamentos e 115 mil bilhetes emitidos nas duas primeiras fases, além de cobertura de imprensa em vários países sem depender de mídia paga.

Neste artigo, eu destrincho o caso, os números verificados e os três elementos que fizeram uma ação local virar pauta global.

O que é o Health Ticket

A mecânica é simples e a graça está nela: em vez de pagar a passagem com dinheiro, você entra na frente de uma cabine com câmera e sensores e faz 20 agachamentos em até 2 minutos. A máquina conta cada repetição. Sem trapacear. Completou, saiu um bilhete válido para uma viagem na rede de transporte da cidade.

E aqui um detalhe que muita gente erra ao recontar a história: a ideia não nasceu num ministério da saúde. Nasceu no Sports Festival, um evento multiesportivo privado que reúne mais de 100 mil participantes por edição em Cluj-Napoca, com apoio da prefeitura e do conselho local para operar nos pontos de ônibus. Eles não fizeram uma campanha para vender ingresso. Fizeram uma ação dentro da cidade que fez o mundo falar sobre eles.

A primeira fase rodou de agosto a dezembro de 2020, aproveitando a Semana Europeia do Esporte. A segunda, de agosto de 2021 a fevereiro de 2022. A repercussão foi tanta que a ação virou até verificação do Snopes, o maior site de fact-checking dos Estados Unidos, respondendo à pergunta que circulava nas redes: "isso existe mesmo?". Existe.

Os números da campanha

DadoNúmeroFonte
Agachamentos nas duas primeiras fasesmais de 2,3 milhõesSports Festival (site oficial)
Bilhetes emitidos em 308 dias de operação115.772Sports Festival (site oficial)
Bilhetes só na segunda fase (ago/2021 a fev/2022)mais de 60.000EU Urban Mobility Observatory
Regra do desafio20 agachamentos em até 2 minutosRomania Insider
Minutos de exercício acumulados231.554Sports Festival (site oficial)

Os três elementos que nenhum anúncio compra

Por que isso viralizou? Não foi por orçamento. Como estrategista, o padrão que eu vejo em toda ação que ganha o mundo sozinha é a soma de três elementos que dinheiro de mídia não compra.

Primeiro: era visualmente absurda. Você vê alguém agachando num ponto de ônibus e para automaticamente para entender o que está acontecendo. A cena é o criativo.

Segundo: criava participação. A pessoa não era espectadora, ela era parte da campanha. Cada morador suando por um bilhete virava protagonista de um conteúdo que ele mesmo queria postar. E quem participa, compartilha.

Terceiro: tinha uma causa real por trás. Saúde. Movimento. Algo que as pessoas querem defender e contar para alguém, o que dá licença social para o compartilhamento.

Quando esses três elementos estão juntos, a própria ideia vira o canal de distribuição.

Repare no que o Sports Festival ganhou com isso: associação direta da marca ao atributo que ela quer ocupar (esporte na vida real das pessoas), imprensa internacional e a gratidão de uma cidade. Nenhum plano de mídia entrega esse pacote.

O que a história viral não conta

Três ressalvas de quem foi checar. Primeiro: a versão que circula por aí de que "não teve governo envolvido" é exagerada. A criação e a operação são do Sports Festival, mas a ação contou com apoio da prefeitura e do conselho local de Cluj-Napoca, o que foi essencial para usar os pontos de ônibus e validar os bilhetes.

Segundo: a expansão para outras cidades, frequentemente citada como fato, era plano em andamento: a própria organização falava em conversas para criar uma rede de "estações de saúde" em outros municípios, o que é diferente de replicação consolidada.

Terceiro: "viralizou sem um centavo de mídia paga" é a leitura do mecanismo, não um número auditado. O que dá para verificar é o resultado: cobertura espontânea de veículos e instituições de vários países, do Snopes ao observatório de mobilidade da União Europeia.

Como aplicar a lógica do Health Ticket na sua marca

Antes de perguntar quanto custa a próxima campanha, teste a ideia com estas três perguntas:

  1. A cena para o olhar? Se uma foto da sua ação não faz ninguém parar o dedo na tela, você vai precisar pagar caro para forçar a atenção. O absurdo visual é o criativo mais barato que existe.
  2. A pessoa participa ou só assiste? Desenhe a ação para que o público esteja dentro dela, com esforço, jogo ou recompensa. Quem participa vira mídia; quem assiste, no máximo, lembra.
  3. Existe uma causa que dá orgulho de contar? As pessoas compartilham o que diz algo sobre elas. Uma causa real (saúde, cidade, comunidade) dá ao público a licença social para espalhar a sua marca.

A sua próxima campanha tem algo que faça alguém parar, participar e contar para outra pessoa?

Perguntas frequentes

O que é o Health Ticket da Romênia?

O Health Ticket (Biletul de Sănătate) é uma campanha criada pelo Sports Festival, maior evento multiesportivo da Romênia, em Cluj-Napoca: uma cabine com câmera instalada no ponto de ônibus emitia um bilhete de transporte gratuito para quem fizesse 20 agachamentos em até 2 minutos. Nas duas primeiras fases (2020 a 2022), foram mais de 2,3 milhões de agachamentos e 115 mil bilhetes emitidos.

Quem criou a campanha dos agachamentos por passagem?

A campanha foi criada pelo Sports Festival, evento esportivo privado de Cluj-Napoca que reúne mais de 100 mil participantes por edição, com apoio da prefeitura e do conselho local. Não foi uma iniciativa do sistema público de saúde: foi uma marca privada usando a cidade como palco.

A campanha realmente funcionou?

Sim, e os números são públicos: 115.772 bilhetes emitidos em 308 dias de operação e mais de 2,3 milhões de agachamentos contabilizados pela organização. Além do resultado local, a ação gerou cobertura espontânea internacional, incluindo verificação do Snopes nos Estados Unidos e registro no observatório de mobilidade urbana da União Europeia.

Por que campanhas participativas viralizam mais?

Porque transformam o público em mídia: quem participa de uma ação (em vez de só assistir a um anúncio) tem motivo próprio para fotografar, postar e contar. Quando a participação se soma a uma cena visualmente inusitada e a uma causa que dá orgulho de defender, a ideia se distribui sozinha, sem depender de verba de anúncio.