Will Jardim

Liquid Death: como uma água em lata preta com caveira chegou a US$ 333 milhões em vendas e valuation de US$ 1,4 bilhão

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

A Liquid Death é uma marca americana que vende água mineral em lata preta, com caveira no rótulo e nome de morte. Lançada em 2019 por Mike Cessario, ela saiu de cerca de US$ 2,8 milhões no primeiro ano para US$ 333 milhões em vendas no varejo em 2024, e alcançou um valuation de US$ 1,4 bilhão em março de 2024. Vendendo o produto mais comum do planeta: água. A mesma que sai da torneira, que está no mercadinho da esquina, que todo concorrente já vendia por centavos.

Neste artigo, eu destrincho o caso, os números verificados e o mecanismo de identidade de marca que fez uma commodity virar objeto de desejo.

O caso Liquid Death: água comum, marca absurda

Em 2019, Mike Cessario, um diretor de criação vindo do mundo da publicidade e do heavy metal, decidiu vender água mineral como se fosse uma marca de cerveja ou de banda de rock: lata preta, tipografia gótica, caveira, slogan "murder your thirst" (assassine a sua sede).

Investidores do Vale do Silício acharam a ideia ridícula. Disseram que ninguém compraria água de uma marca assustadora, que o nome afastaria as mães nos supermercados, que aquilo era piada. Ele lançou assim mesmo.

O detalhe que quase todo mundo esquece: antes de existir produto, existiu marca. Cessario testou o conceito com um comercial em vídeo e uma página no Facebook, e a reação da audiência veio antes da primeira lata sair da fábrica. A demanda validou a identidade, não o contrário.

Os números da Liquid Death

DadoNúmeroFonte
Faturamento no primeiro ano (2019)cerca de US$ 2,8 milhõesSacra
Vendas no varejo em 2022US$ 110 milhõesSacra
Vendas no varejo em 2023US$ 263 milhõesSacra
Vendas no varejo em 2024US$ 333 milhõesSacra
Valuation na rodada de out/2022US$ 700 milhõesCNN Business
Valuation na rodada de mar/2024 (US$ 67 milhões captados)US$ 1,4 bilhãoBloomberg

Em cinco anos, a marca multiplicou as vendas por mais de cem vezes e dobrou de valuation entre 2022 e 2024. Sem inventar produto novo, sem tecnologia, sem fórmula secreta. Água.

O que a Liquid Death entendeu (e a maioria das marcas não)

Aqui está o que me interessa como estrategista. Depois de estudar esse caso a fundo, eu vejo três decisões que explicam o resultado:

Primeira: eles não venderam água, venderam identidade. Quem compra Liquid Death não está com sede. Está comunicando quem é. A lata na mão diz "eu não sou mais um", do mesmo jeito que uma camiseta de banda diz. O produto é o pretexto; a identidade é a compra.

Segunda: eles criaram um inimigo. O inimigo da Liquid Death nunca foi a Evian ou a Perrier. Foi o mundo corporativo sem graça, o marketing de bebida saudável todo igual, azul e branco, com montanha e gota d'água. Ao se posicionar contra isso, a marca virou símbolo de um grupo, e marcas que representam grupos não competem por preço.

Terceira: o conteúdo nunca falou do produto. Shows, artistas, tatuagens, humor ácido, comerciais absurdos. Tudo falava do universo da marca, quase nada falava de água. Resultado: as pessoas compartilhavam o conteúdo sem ganhar nada por isso, porque compartilhar aquilo também dizia algo sobre elas.

A Liquid Death não venceu no mercado de água. Ela criou uma categoria onde é a única que existe.

O erro da maioria das marcas não é o produto. É achar que o produto precisa se vender sozinho. Em mercado saturado, quem ganha não é quem tem o melhor produto. É quem tem a identidade mais forte.

O que os números não contam

Honestidade intelectual: os US$ 333 milhões de 2024 são vendas no varejo (o que o consumidor pagou na gôndola), não a receita que a Liquid Death registra como empresa, que é menor por ser venda no atacado. E um valuation de US$ 1,4 bilhão é o preço que investidores pagaram por uma fatia, não dinheiro em caixa nem prova de lucro.

Outro ponto que o storytelling da caveira esconde: a marca só explodiu quando entrou na distribuição física de verdade, com redes como Whole Foods, 7-Eleven e Target. Identidade forte sem produto na prateleira é perfil bonito no Instagram. A genialidade da Liquid Death foi usar a marca para conquistar a gôndola, e a gôndola para escalar a marca.

Como aplicar a lição da Liquid Death na sua marca

Se você vende um produto que parece comum, que tem concorrente fazendo a mesma coisa e que compete por preço, três perguntas para se fazer:

  1. O que a sua marca diz sobre quem compra? Se a resposta for "nada", você vende commodity. A pergunta não é "por que meu produto é melhor", é "o que a pessoa comunica ao escolher ele".
  2. Contra o que você se posiciona? Toda identidade forte tem um inimigo claro: um jeito de fazer, uma estética, um padrão do mercado. Se você não é "contra" nada, você é igual a tudo.
  3. Seu conteúdo fala do produto ou do universo? Conteúdo sobre produto informa quem já ia comprar. Conteúdo sobre universo recruta quem nunca tinha pensado em você. A Liquid Death fez quase só o segundo.

Agora me responde: se o seu produto perdesse o logo amanhã, alguém sentiria falta da marca, ou só do desconto?

Perguntas frequentes

O que é a Liquid Death?

A Liquid Death é uma marca americana de água mineral em lata, fundada por Mike Cessario e lançada em 2019, conhecida pela identidade visual de heavy metal: lata preta, caveira e o slogan "murder your thirst". Em 2024, alcançou US$ 333 milhões em vendas no varejo e valuation de US$ 1,4 bilhão.

Quanto vale a Liquid Death?

A Liquid Death foi avaliada em US$ 1,4 bilhão na rodada de investimento de março de 2024, na qual captou US$ 67 milhões, segundo a Bloomberg. Isso representa o dobro do valuation de US$ 700 milhões da rodada de outubro de 2022.

Por que a Liquid Death deu certo vendendo água comum?

Porque ela não vendeu água, vendeu identidade. A marca criou um inimigo (o marketing corporativo sem personalidade), construiu um universo de conteúdo que as pessoas queriam compartilhar e transformou uma commodity em símbolo de pertencimento. O produto sempre foi o mesmo; a percepção é que valia bilhões.

Qualquer marca pode copiar a estratégia da Liquid Death?

Copiar a caveira, não; copiar o mecanismo, sim. O que funciona é o princípio: identidade que comunica algo sobre quem compra, um inimigo claro e conteúdo sobre o universo da marca em vez do produto. Aplicado sem coerência com o público, vira fantasia; aplicado com coerência, tira qualquer produto da guerra de preço.