Will Jardim

Longevidade e alta performance: por que o próximo bilhão da suplementação não será vendido para quem quer viver mais

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

Grupo de pessoas mais velhas em aula de exercício físico.
Foto: Centre for Ageing Better/Unsplash

A longevidade virou a tendência de consumo mais importante do mundo. A Euromonitor colocou o "Healthspan Plans" no topo da lista de tendências globais de 2025, acima de sustentabilidade e de inteligência artificial, e o mercado global de wellness bateu o recorde de US$ 6,8 trilhões em 2024, segundo o Global Wellness Institute. Mas a minha tese é que quase todo mundo está lendo essa onda errado: o próximo bilhão da suplementação não será vendido para quem quer viver mais. Será vendido para quem quer performar mais por mais tempo.

Neste artigo, eu mostro o que os números dizem, onde o mercado tradicional de suplementos quebrou e por que "longevidade com alta performance" é um posicionamento, não uma fórmula.

O que os números dizem sobre o mercado de longevidade

Dois dados verificáveis sustentam a tese de que a longevidade deixou de ser nicho:

O primeiro vem da Euromonitor. Entre as cinco tendências globais de consumo de 2025, a consultoria colocou no topo o "Healthspan Plans": a mudança de "viver mais" para "viver saudável por mais tempo". Segundo a própria Euromonitor, 52% dos consumidores acreditam que estarão mais saudáveis nos próximos cinco anos do que estão hoje. Repare no detalhe: a palavra central não é lifespan (tempo de vida), é healthspan (tempo de vida com saúde e capacidade).

O segundo vem do Global Wellness Institute: a economia do wellness cresceu 7,9% em um ano, atingiu US$ 6,8 trilhões em 2024 e tem projeção de chegar a US$ 9,8 trilhões em 2029. Para dar escala: isso é maior que o setor global de turismo e quase quatro vezes a indústria farmacêutica.

Dentro dessa economia, os suplementos voltados a envelhecimento e vitalidade viraram uma categoria própria, com relatórios de mercado projetando crescimento de dois dígitos ao ano. Os números exatos variam de consultoria para consultoria, mas a direção é uma só: para cima.

O mercado que saturou

Enquanto isso, o mercado tradicional de suplementação quebrou. Por décadas, suplementação significava estética: whey, creatina, pré-treino. O consumidor era jovem, queria resultado rápido no espelho, e as marcas competiam por sabor, preço e patrocínio de atleta fitness.

Esse mercado virou commodity. Todo mundo vende a mesma creatina, com o mesmo laudo, na mesma gôndola. Entrou em guerra de preço, e quem ficou só nele está sangrando margem até hoje. Quando o produto é indiferenciado, o posicionamento é a única variável que sobra, e é exatamente aí que a onda da longevidade abre espaço.

A aposta que eu faço diferente

Aqui está a minha leitura como estrategista, e ela diverge do consenso. Todo mundo está tratando longevidade como sinônimo de envelhecer bem: comunicação com cabelos grisalhos, promessa de "viver até os 100". Eu discordo dessa tradução. O consumidor que está puxando essa demanda não está pensando na velhice. Está pensando na terça-feira que vem.

O padrão que eu vejo se repetir: a procura por NMN, NAD+, protocolos de biohacking e exames preventivos não vem de idosos. Vem de executivos, atletas e empreendedores de 35 a 55 anos que não querem desacelerar. Eles não compram "mais anos de vida". Compram mais foco, mais energia e mais capacidade de decisão pelas próximas décadas. A velhice é abstrata; a performance é hoje.

Longevidade com alta performance é um posicionamento, não uma fórmula.

E esse reposicionamento muda tudo na economia da marca. Pela minha observação dos players desse nicho, esse consumidor gasta várias vezes mais por mês do que o comprador tradicional de suplementos, tem LTV alto, recorrência alta e foge de guerra de preço, porque não está comparando ingredientes: está comprando uma identidade de quem se otimiza. Contra identidade, cupom de desconto não compete.

A marca que entender isso primeiro não vai disputar o mercado de suplementos. Vai criar uma categoria nova dentro dele, e categorias novas não têm concorrente na primeira volta.

O que os números não contam

Honestidade intelectual: os US$ 6,8 trilhões do Global Wellness Institute medem a economia inteira do wellness (de spa a imóvel "wellness"), não o bolso específico da suplementação de longevidade. As projeções da categoria vêm de consultorias de mercado com metodologias e números que variam bastante entre si. E a afirmação de que esse consumidor gasta mais por mês é a minha leitura de mercado, não um dado de pesquisa pública.

Nada disso enfraquece a tese, mas muda como você deve usá-la: os dados provam que a atenção e o dinheiro estão migrando para healthspan. O recorte "performance, não velhice" é aposta estratégica, e aposta estratégica se valida testando posicionamento com audiência real, não citando relatório.

Como posicionar sua marca na onda da longevidade

Se você atua em suplementação, saúde ou wellness, três testes antes de colar a palavra "longevidade" no seu rótulo:

  1. Você está vendendo anos ou capacidade? "Viver até os 100" é abstrato e não gera compra recorrente. "Render mais nos próximos 10 anos" é concreto e mensurável. Escolha o segundo e toda a comunicação muda.
  2. Seu cliente é o idoso ou o executivo de 40? Quem paga caro por prevenção é quem ainda tem muito a perder. Defina a persona pelo medo real dela (desacelerar, perder o pique, ficar para trás), não pela idade do estoque de imagem.
  3. Sua marca vende ingrediente ou identidade? Se o argumento central é a dosagem de NMN, você volta para a guerra de preço em um ano. Se é o estilo de vida de quem se otimiza, você constrói comunidade, recorrência e margem.

O mercado de estética saturou, o de longevidade está sendo desenhado agora. Você já enxergava essa virada ou só está vendo agora?

Perguntas frequentes

O que é o mercado de longevidade?

O mercado de longevidade é o conjunto de produtos e serviços voltados a estender o healthspan, o tempo de vida com saúde e capacidade plena: suplementos, diagnósticos preventivos, wearables e protocolos de otimização. Ele faz parte da economia global de wellness, que atingiu US$ 6,8 trilhões em 2024 segundo o Global Wellness Institute, e foi apontado pela Euromonitor como a principal tendência de consumo de 2025.

Qual a diferença entre lifespan e healthspan?

Lifespan é quantos anos você vive; healthspan é por quantos desses anos você vive com saúde, energia e autonomia. A virada do mercado de 2025 em diante é exatamente essa: o consumidor deixou de comprar "vida longa" e passou a comprar "capacidade prolongada".

Quem é o consumidor de suplementos de longevidade?

Na minha leitura de mercado, o núcleo da demanda não são idosos: são executivos, atletas e empreendedores de 35 a 55 anos que querem manter foco, energia e capacidade de decisão por décadas. É um público de alto poder aquisitivo, que compra identidade e prevenção, não promessa estética.

Longevidade é uma moda passageira no marketing de suplementos?

Os dados sugerem que não: a economia do wellness cresce quase 8% ao ano e tem projeção de US$ 9,8 trilhões até 2029, com envelhecimento populacional como motor estrutural. O que pode passar é o rótulo; a demanda por performance sustentada tende a ficar.