Will Jardim

Como a Panini fatura € 1 bilhão em ano de Copa vendendo pedaços de papel repetidos

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 5 min de leitura

A Panini, editora italiana fundada em 1961 em Módena, fatura cerca de € 1 bilhão em ano de Copa do Mundo vendendo um produto que tecnicamente não vale nada: papel impresso com cola. Só a coleção da Copa do Catar, em 2022, gerou € 613 milhões em vendas líquidas, recorde da empresa para uma única coleção. O motor desse império não é a figurinha. É a psicologia do álbum incompleto: você não compra o que quer, você compra o que falta.

Neste artigo, eu conto de onde a Panini veio, mostro os números verificados do negócio e destrincho o mecanismo psicológico que a sua marca pode aprender (e um mito sobre as figurinhas repetidas que vale desfazer).

De uma banca de jornal em Módena a mais de 150 países

Tudo começou na banca de jornais da família Panini, no centro de Módena, na Itália. Em 1961, os irmãos Giuseppe e Benito fundaram a editora depois de comprar um estoque encalhado de figurinhas de uma editora de Milão, dividir em pacotinhos e ver aquilo sumir das bancas. Em 1970, lançaram o primeiro álbum de Copa do Mundo, no México, e nunca mais soltaram o ritual.

Hoje a empresa tem canais de distribuição em mais de 150 países e movimenta mercados inteiros a cada Copa. Sem tecnologia proprietária, sem patente, sem barreira de entrada óbvia. Qualquer gráfica poderia imprimir a mesma figurinha. O que ninguém mais tem é o mecanismo psicológico por trás dela.

Os números da Panini

DadoNúmeroFonte
Fundação1961, em Módena (Itália)Exame
Primeiro álbum de Copa do MundoMéxico, 1970Exame
Presença globalMais de 150 paísesPanini/Coca-Cola
Faturamento na Copa de 2018Cerca de € 1 bilhão no anoInside the Games
Vendas líquidas da coleção da Copa 2022€ 613 milhões (recorde)ESPN
Figurinhas para completar o álbum de 2026 sem trocas (média)6.750 figurinhas, ou 964 pacotesEstat Júnior

Repare no último número da tabela. Para completar um álbum sozinho, sem trocar nada, você compraria em média quase mil pacotes. É esse abismo entre "o álbum completo" e "o que eu tenho na mão" que sustenta o negócio.

A incompletude que gera compulsão

Aqui está o que me interessa como estrategista. O segredo não está na figurinha, está na lacuna. A Panini entendeu antes de todo mundo que a incompletude gera compulsão. Ninguém compra álbum de figurinha porque precisa dele. Compra porque a lacuna incomoda, porque falta uma figurinha específica, porque tem um pacote novo na banca.

O modelo de receita é construído sobre antecipação: cada pacote fechado é uma pequena loteria emocional, e cada repetida empurra você para a próxima tentativa ou para a mesa de trocas (que, de quebra, transforma o produto em ritual social e faz o marketing pela marca).

As marcas que mais faturam não vendem produtos, vendem estados emocionais.

O produto é papel. O que se vende é a tensão de estar incompleto. Desejo, pertencimento, antecipação. Quem entende isso para de competir por preço e começa a construir algo que o mercado não consegue ignorar.

O que as repetidas não são (e todo mundo acha que são)

Honestidade intelectual: a teoria de que a Panini imprime de propósito menos figurinhas dos craques para forçar a compra é lenda. A empresa afirma publicamente que todas as figurinhas são impressas em quantidades iguais, e análises estatísticas independentes não encontram evidência de raridade fabricada.

A verdade é mais interessante para quem estuda marketing: a compulsão não precisa de manipulação, a matemática faz o trabalho sozinha. É o clássico "problema do colecionador": com distribuição aleatória, as últimas figurinhas que faltam ficam progressivamente mais difíceis de tirar, a ponto de a CNN Brasil calcular que é mais provável ganhar na loteria do que completar o álbum sem repetidas. A Panini não fabrica escassez. Ela desenhou um produto em que a escassez emerge naturalmente, e o cliente sente essa escassez na pele a cada pacote.

Como aplicar a psicologia da incompletude na sua marca

Três perguntas para testar se o seu negócio vende produto ou vende estado emocional:

  1. O que fica incompleto quando o cliente compra só uma vez? Coleções, níveis, séries e jornadas com começo, meio e fim criam a lacuna que puxa a próxima compra. Produto avulso não gera retorno, sistema incompleto gera.
  2. Existe um elemento de antecipação antes da compra? O pacote fechado da Panini é uma micro-loteria. Pergunte o que, na sua oferta, faz o cliente sentir algo antes mesmo de consumir.
  3. A sua marca cria ritual social em volta do produto? A troca de figurinhas transforma clientes em distribuidores da marca. Se o seu produto não dá assunto, ele não circula.

Perguntas frequentes

Como a Panini ganha dinheiro com figurinhas?

A Panini, editora italiana fundada em 1961 em Módena, fatura cerca de € 1 bilhão em anos de Copa do Mundo vendendo álbuns e pacotes de figurinhas em mais de 150 países. O modelo se apoia na psicologia do álbum incompleto: a distribuição aleatória gera repetidas, e a lacuna no álbum puxa compras sucessivas e trocas entre colecionadores.

A Panini imprime menos figurinhas dos jogadores famosos de propósito?

Não há evidência disso. A empresa afirma que todas as figurinhas são impressas em quantidades iguais, e análises estatísticas independentes corroboram a distribuição equilibrada. As repetidas são consequência matemática da aleatoriedade (o "problema do colecionador"), não de raridade fabricada.

Quantas figurinhas são necessárias para completar o álbum da Copa?

Sem trocas, um colecionador precisaria comprar em média cerca de 6.750 figurinhas (964 pacotes) para completar o álbum da Copa de 2026, segundo cálculo da Estat Júnior. Na prática, as trocas reduzem drasticamente esse número, e é por isso que o ritual social faz parte do produto.

O que uma marca pode aprender com a Panini?

Que os maiores faturamentos vêm de estados emocionais, não de atributos de produto. A Panini vende antecipação, pertencimento e a tensão de estar incompleto usando papel e cola. Qualquer marca pode se perguntar: o que o meu produto deixa em aberto que faz o cliente voltar?