Will Jardim

Posicionamento antes do networking: o que Neymar, Ronaldo Fenômeno e a Ryanair provam sobre entrar no radar dos grandes

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

Grupo de pessoas conversando em pé em evento de networking.
Foto: Antenna/Unsplash

Se as pessoas grandes não te respondem, não é falta de sorte. É falta de posicionamento. Neymar assinou com a Nike aos 13 anos sem mandar proposta, a Ryanair virou a maior companhia aérea da Europa sem pedir espaço no mercado e Ronaldo Fenômeno atraiu um comprador de R$ 600 milhões para o Cruzeiro entregando resultado, não apresentação em PowerPoint. Três setores, três contextos, a mesma regra: você não entra no radar de quem admira pedindo, entra construindo algo impossível de ignorar.

Neste artigo, eu mostro o padrão que se repete nos três casos e as três perguntas que valem mais do que qualquer estratégia de abordagem.

A porta fechada que você conhece bem

Você já viveu isso: manda mensagem para o grande empresário, ele não responde. Tenta se aproximar de quem você admira, e nada. Vai no evento caro, paga o ingresso, até troca uma ideia com a pessoa no coffee break e, depois disso? Silêncio. Nenhum retorno, nenhuma continuidade. E você começa a achar que é azar, que falta conexão, que você precisaria de um QI do setor que você não tem.

Essa sensação de porta fechada costuma virar autossabotagem: a pessoa passa a acreditar que o problema é dela, que falta carisma, e investe ainda mais tempo aperfeiçoando a abordagem: um texto de mensagem mais bem escrito, um approach mais estratégico no evento. O erro está antes disso. Não é a abordagem que precisa melhorar. É o que existe por trás dela.

Pessoas extraordinárias não ignoram você por arrogância. Elas ignoram porque recebem mais pedidos de aproximação do que conseguem responder, e o único critério que separa quem recebe resposta de quem não recebe é a evidência concreta de que vale a pena prestar atenção.

Três provas de que o posicionamento vem antes

Neymar e a Nike. O Neymar não conseguiu patrocínio da Nike porque pediu. Ele assinou o primeiro contrato com a marca aos 13 anos, em 2005, antes mesmo de se profissionalizar no Santos. O talento falava antes de qualquer mensagem, antes de qualquer apresentação, antes de qualquer tentativa de aproximação formal. A marca foi até ele.

A Ryanair e o mercado europeu. A Ryanair não virou a maior companhia aérea da Europa em passageiros, a primeira a transportar mais de 200 milhões de pessoas em 12 meses, pedindo espaço no jogo que já existia. Ela levou o modelo low-cost radical para a Europa quando ninguém operava assim por lá e inventou outro jogo, em que era a única jogadora.

Ronaldo e o Cruzeiro. O Ronaldo não atraiu investidores bilionários para o Cruzeiro mandando proposta e esperando retorno. Ele comprou a SAF do clube em dezembro de 2021, num acordo de R$ 400 milhões, reorganizou a casa, devolveu o time à Série A e, em abril de 2024, vendeu o controle por R$ 600 milhões ao empresário Pedro Lourenço. A reconstrução do clube foi a mensagem, não uma reunião de apresentação.

A regra que se repete nos três casos

Como estrategista de posicionamento, esse é o padrão que eu vejo se repetir em todo mercado: você não acessa o nível acima pedindo para entrar. Você constrói algo que força a porta a abrir sozinha. Isso muda completamente a pergunta. A pergunta não é "como eu chego até essa pessoa". A pergunta é "o que eu preciso construir para que essa pessoa sinta que precisa chegar até mim".

Repare que nenhuma das três histórias envolve um pedido de acesso bem-sucedido. Envolve, em todos os casos, alguém construindo algo tão evidente que o acesso deixou de ser necessário. A porta parou de existir como obstáculo, porque quem estava do outro lado passou a enxergar valor suficiente para atravessar o caminho sozinho.

O seu posicionamento é o seu convite.

Sabe qual é o maior segredo dos grandes networkers do mundo? Eles quase nunca fazem networking. Eles são tão bem posicionados que as conexões chegam até eles sem esforço, sem pedido, sem mensagem no direct. O trabalho todo já foi feito antes, na construção do que eles representam.

O que essas histórias não contam

Honestidade intelectual: os três exemplos carregam um viés de sobrevivência. O Neymar era um talento geracional com estrutura em volta desde cedo. A Ryanair não inventou o low-cost do zero: ela adaptou para a Europa o modelo que a Southwest já rodava nos Estados Unidos, e executou com uma agressividade que ninguém quis imitar a tempo. O Ronaldo entrou no Cruzeiro com capital, marca pessoal e rede que poucos têm.

Isso não derruba a tese, mas calibra ela: posicionamento não substitui competência, capital ou tempo de construção. Ele é o que torna a sua competência visível. Se não existe substância por trás, nenhum posicionamento segura a porta aberta.

Como sair do modo pedinte em 3 perguntas

Antes de mandar a próxima mensagem para alguém que você admira, teste a si mesmo:

  1. O que você já construiu que fala por você? Se a pessoa clicar no seu perfil depois da sua mensagem, ela encontra evidência concreta de valor ou encontra promessa? A resposta define se a mensagem sequer precisava ser enviada.
  2. Qual jogo você está jogando? Se você disputa atenção nas mesmas regras que todo mundo, você é mais um pedido na caixa de entrada. A Ryanair não pediu espaço no jogo existente, ela criou outro. O que você faz diferente o suficiente para ser o único fazendo?
  3. O que você entregaria antes de pedir qualquer coisa? Resultado entregue é a única apresentação que dispensa follow-up. Pense no que você pode construir, publicar ou provar que faça a pessoa querer a conversa.

Perguntas frequentes

Por que pessoas influentes não respondem minhas mensagens?

Pessoas influentes recebem mais pedidos de aproximação do que conseguem processar, e filtram pelo único critério escalável: evidência concreta de que vale a pena prestar atenção. Não é arrogância nem azar. Enquanto o seu trabalho não fala por você, a sua mensagem compete com centenas de outras idênticas.

O que vem primeiro: posicionamento ou networking?

Posicionamento. Networking amplifica o que você já representa; se você ainda não representa nada claro, ele amplifica o vazio. Os casos de Neymar com a Nike, da Ryanair na Europa e de Ronaldo no Cruzeiro mostram conexões de alto nível acontecendo como consequência de algo construído, nunca como ponto de partida.

Como entrar no radar de pessoas que eu admiro?

Construindo algo que essas pessoas não conseguem ignorar: um resultado documentado, um trabalho público de qualidade rara ou uma posição única no seu mercado. Em paralelo, apareça onde elas já olham (publique, mostre o processo, gere prova). O acesso vira consequência, não pedido.

Networking tradicional ainda vale a pena?

Vale, mas como acelerador, não como fundação. Eventos e conexões encurtam caminhos para quem já tem posicionamento claro e prova de valor. Para quem ainda não tem, a prioridade é construir a evidência primeiro, porque é ela que transforma um contato em relacionamento.