Will Jardim

A Red Bull não fabrica a própria bebida. E fatura € 12 bilhões por ano

Por Will Jardim · Publicado em · Atualizado em · 6 min de leitura

A Red Bull, lançada em 1987 na Áustria por Dietrich Mateschitz, não tem uma única fábrica própria: 100% da produção da bebida é terceirizada. Mesmo assim, vendeu 13,9 bilhões de latas em 178 países e faturou € 12,2 bilhões em 2025. O produto foi reprovado em pesquisa antes do lançamento, a lata foi considerada feia e o preço era o dobro da concorrência. Nada disso mudou. O que a Red Bull construiu não foi uma bebida melhor, foi uma das marcas mais poderosas da história recente.

Neste artigo, eu destrincho os números verificados do caso, o que a Red Bull controla de verdade (spoiler: não é a linha de produção) e as perguntas que você deveria fazer sobre a sua própria marca.

O produto que a pesquisa reprovou

Quando a Coca-Cola dominava o mundo, a Pepsi brigava por espaço e a Heineken reinava nas festas, um austríaco desconhecido chegou com uma latinha considerada feia, sabor estranho e preço em dobro. Mateschitz contou em entrevistas que a pesquisa de mercado pré-lançamento foi um desastre: as pessoas rejeitaram o sabor, a cor e o conceito. Qualquer empresário seguindo o manual convencional teria engavetado o projeto ali mesmo.

Ele lançou assim mesmo, em 1987, na Áustria. No primeiro ano, vendeu cerca de 1 milhão de latas, um número pequeno perto do que viria, mas suficiente para provar que existia um caminho. Hoje a Red Bull é a líder global de uma categoria que, no Ocidente, ela praticamente criou do zero.

Os números da Red Bull

DadoNúmeroFonte
Lançamento1987, na ÁustriaForbes
Latas vendidas no primeiro anoCerca de 1 milhãoCascade Strategy Study
Latas vendidas em 202513,97 bilhões (alta de 10,2%)Red Bull (dados oficiais)
Faturamento em 2025€ 12,2 bilhõesRed Bull (dados oficiais)
Presença global178 paísesRed Bull (dados oficiais)
Fábricas próprias de bebidaZero: produção terceirizada com a engarrafadora RauchTutor2u
Investimento em marketingCerca de 35% das vendas (Coca-Cola: ~9%)Trung Phan

Você já pagou o dobro numa Red Bull sabendo que tinha opção mais barata bem ao lado, na mesma prateleira? Já comprou porque era Red Bull, não porque era energético? Isso não é coincidência. É o resultado direto da última linha da tabela.

O que a Red Bull controla de verdade

Aqui está o detalhe que a maioria das pessoas não sabe, e que me interessa como estrategista de branding: a Red Bull não controla a fábrica, controla o significado. A produção fica com a Rauch, engarrafadora austríaca. A obsessão da empresa vai toda para a marca.

O investimento de cerca de um terço das vendas em marketing não vai para anúncio de TV convencional. Vai para patrocínio de esportes radicais, Fórmula 1, um salto da estratosfera, times de futebol pelo mundo. A Red Bull não anuncia a bebida. Ela constrói um universo inteiro, de adrenalina, superação e limites sendo empurrados, e coloca a latinha dentro desse universo como símbolo, não como produto sendo vendido diretamente.

Repare no que isso significa na prática: o sabor reprovado em pesquisa nunca deixou de ser o mesmo. A latinha considerada feia nunca virou bonita. O preço nunca baixou para competir. Nada do produto em si mudou. O que mudou foi o significado que a marca construiu ao redor dele.

Produto qualquer um copia. Marca ninguém consegue replicar.

Por isso, dono de marca: o segredo não é ficar lançando produto atrás de produto só porque a concorrência lançou o dela. O segredo é entender por que as pessoas deveriam escolher você, e depois investir pesado nesse motivo, não no produto isolado.

O que a lenda não conta

Honestidade intelectual, porque todo case icônico vira meio mito com o tempo. Primeiro: a Red Bull não nasceu de uma ideia original de laboratório. Mateschitz conheceu o Krating Daeng, energético tailandês criado por Chaleo Yoovidhya, adaptou a fórmula para o paladar ocidental e fundou a empresa em sociedade com ele. A genialidade foi de posicionamento e distribuição, não de invenção do produto.

Segundo: a história da "pesquisa mais reprovada de todos os tempos" vem do próprio Mateschitz e virou parte do storytelling oficial da marca. O desastre da pesquisa é bem documentado em entrevistas, mas trate os superlativos como narrativa de fundador, não como estatística auditada. Nada disso enfraquece a lição. Pelo contrário: mostra que até a história de origem é um ativo de marca construído com intenção.

Como aplicar o modelo Red Bull na sua marca

Três perguntas para testar se você está construindo marca ou só administrando produto:

  1. O que a sua empresa controla com obsessão? A Red Bull terceirizou a fábrica e centralizou o significado. Pergunte o que, no seu negócio, é commodity terceirizável e o que é o ativo que ninguém pode copiar. Investa desproporcionalmente no segundo.
  2. O seu marketing vende o produto ou o universo? Se toda a sua comunicação lista especificação, preço e vantagem funcional, você está competindo dentro da categoria de alguém. Marcas dominantes constroem o mundo do qual o cliente quer fazer parte, e o produto é o ingresso.
  3. A sua marca sobreviveria a um produto mediano? Teste duro: se o seu produto fosse apenas ok, como o sabor da Red Bull nas pesquisas, o cliente ainda escolheria você? Se a resposta é não, o seu faturamento depende do produto, não da marca. E produto, qualquer um copia.

Quando sua empresa entende que o que ela vende não é o produto, mas o que o produto representa, ela para de competir por preço e começa a ditar o próprio jogo. A pergunta que fica: o seu produto está disputando espaço numa categoria alheia, na base do preço e da especificação, ou você já construiu o universo onde ele é a única opção que faz sentido escolher?

Perguntas frequentes

A Red Bull tem fábrica própria?

Não. A Red Bull terceiriza 100% da produção da bebida, feita pela Rauch, engarrafadora austríaca. A empresa funciona, na prática, como uma máquina de marketing e branding: o ativo que ela controla com obsessão é a marca, não a linha de produção.

Quantas latas a Red Bull vende por ano?

Em 2025, a Red Bull vendeu 13,97 bilhões de latas em 178 países, alta de 10,2% sobre 2024, com faturamento de € 12,2 bilhões, segundo dados oficiais da empresa. No primeiro ano, em 1987, foram cerca de 1 milhão de latas vendidas na Áustria.

Quem criou a Red Bull?

O austríaco Dietrich Mateschitz lançou a Red Bull em 1987, adaptando para o paladar ocidental o Krating Daeng, energético tailandês criado por Chaleo Yoovidhya, que se tornou sócio da empresa. A pesquisa de mercado pré-lançamento reprovou sabor, cor e conceito, e Mateschitz lançou mesmo assim.

Quanto a Red Bull gasta em marketing?

Estimativas de mercado apontam algo em torno de 35% das vendas investido em marketing, muito acima de gigantes como Coca-Cola (cerca de 9%). O dinheiro vai majoritariamente para a construção do universo da marca: esportes radicais, Fórmula 1, mídia própria e eventos, não para publicidade convencional de produto.