Em fevereiro de 2025, a FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, retirou do alerta principal das bulas de testosterona a menção ao risco cardiovascular, depois que o estudo TRAVERSE, com 5.246 homens, não encontrou aumento de infarto ou AVC entre quem fez a reposição. Em junho de 2026, o Ministério da Saúde incorporou a testosterona injetável ao SUS para homens e adolescentes com hipogonadismo hipogonadotrófico orgânico. Os dois maiores mercados do hemisfério ocidental abrindo a mesma porta, quase ao mesmo tempo. A tese deste artigo: isso não é só notícia de saúde, é o desenho de um novo consumidor de suplementos que as marcas brasileiras ainda não aprenderam a enxergar.
Neste artigo, eu destrincho o que mudou na regulação, os números do mercado e o perfil de consumo que vai dominar o próximo ciclo.
O que mudou no acesso à testosterona
Nos Estados Unidos, a mudança veio por evidência. O comunicado oficial da FDA determinou alterações de rótulo para toda a classe de produtos de testosterona, incorporando os resultados do TRAVERSE, um ensaio clínico com 5.246 homens de 45 a 80 anos que não mostrou taxa maior de infarto ou AVC em comparação com placebo. Na prática, caiu a principal barreira de percepção de risco que segurava médicos e pacientes desde 2015.
No Brasil, a mudança veio por política pública. O SUS passou a oferecer testosterona injetável (undecilato, cipionato e a combinação de quatro ésteres) para o tratamento de hipogonadismo hipogonadotrófico orgânico, com prazo de até 180 dias para a rede pública organizar a oferta.
Todo mundo está falando de hormônio, performance e longevidade. Mas a conversa mais importante não está acontecendo onde deveria: dentro das marcas.
Os números que cercam essa virada
| Dado | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Participantes do estudo TRAVERSE | 5.246 homens (45 a 80 anos) | Urology Times |
| Mudança na bula nos EUA (fev/2025) | Remoção do alerta de risco cardiovascular para toda a classe | FDA |
| Incorporação da testosterona no SUS (jun/2026) | Três apresentações injetáveis para hipogonadismo orgânico | Conselho Federal de Farmácia |
| Faturamento de suplementos no Brasil (2025) | R$ 7,6 bilhões, alta de cerca de 15% | Revista SuplementAção (dados Brasnutri) |
| Projeção do setor até 2030 | R$ 13,8 bilhões | Revista SuplementAção (dados Brasnutri) |
| Lares brasileiros que consomem suplementos | 59% (pesquisa ABIAD) | Revista Kdea 360 |
| Investimento da Nestlé na marca Vital (público 40+) | R$ 203 milhões, Brasil como primeiro mercado do mundo | Forbes |
Repare no último dado da tabela. Não por acaso, a Nestlé escolheu o Brasil como primeiro mercado do planeta para lançar a Vital, uma marca de suplementos voltada exclusivamente para adultos 40+. As grandes empresas globais já enxergaram o movimento. As marcas brasileiras ainda não reagiram.
O detalhe que quase ninguém conectou
Aqui está a leitura que eu faço como estrategista de posicionamento. A testosterona em níveis fisiológicos adequados não transforma homens em pacientes em tratamento. Transforma em pessoas que voltam a ter energia para treinar, trabalhar com intensidade e viver em movimento.
Um homem de 58 anos com os níveis hormonais restaurados não tem o perfil de consumo de suplemento de um aposentado. Tem o perfil de um atleta. E atleta não sobrevive só de vontade: precisa de proteína, creatina, recuperação, nutrição que sustente o novo ritmo. Esse é o consumidor que o mercado de suplementos ainda não aprendeu a enxergar.
A facilidade de acesso à testosterona não é uma notícia exclusivamente de saúde. É uma notícia de mercado.
O problema é que o mercado de suplementos brasileiro ainda está desenhado para o garoto de 25 anos que quer hipertrofia. A embalagem, a comunicação, o influenciador escolhido, o conteúdo nas redes: tudo fala com quem já compra. O padrão que eu vejo se repetir é o de sempre: a categoria inteira briga pelo mesmo público saturado enquanto um novo perfil de consumidor se forma sem nenhuma marca construída para ele. Quem chegar primeiro nesse espaço não vai disputar prateleira. Vai nomear a categoria.
O que os números não contam
Três ressalvas necessárias. Primeira: a FDA retirou o alerta cardiovascular, mas manteve avisos sobre aumento de pressão arterial e registrou incidência maior de fibrilação atrial, além de manter a restrição de uso para o hipogonadismo relacionado só à idade. Não virou liberou geral. Segunda: a incorporação no SUS vale para hipogonadismo hipogonadotrófico orgânico, uma condição clínica diagnosticada, e não para reposição estética ou de performance. Terceira: o "homem de 58 anos com perfil de atleta" é a minha tese de estrategista sobre a direção do consumo, construída em cima desses fatos regulatórios, e não um dado de pesquisa de mercado. Trato como hipótese forte, não como certeza.
Nada disso muda o fundamento: quando a barreira de acesso a um tratamento cai nos dois maiores mercados do Ocidente, o comportamento de consumo ao redor dele muda junto.
Como aplicar na sua marca de suplementos
Três perguntas para testar se a sua marca está pronta para o próximo ciclo:
- Para quem a sua comunicação fala hoje? Se toda a sua estética, linguagem e mídia miram o público de 25 anos, você está disputando o oceano mais vermelho do setor. Audite o funil: quantos clientes 45+ você já tem sem ter feito nada por eles?
- O seu portfólio sustenta o ritmo desse novo consumidor? Proteína, creatina, sono, recuperação e energia para quem voltou a treinar depois dos 50 pedem dosagens, formatos e narrativas próprias, não a mesma embalagem neon com outro rótulo.
- Você consegue ocupar a posição antes das gigantes? A Nestlé entrou com R$ 203 milhões e distribuição nacional. A vantagem da marca menor é velocidade e comunidade: construir autoridade e relação direta com esse público antes que a categoria seja nomeada por outro.
As marcas que entenderem isso primeiro vão ocupar um espaço que, hoje, ainda está praticamente vazio. Você acha que as marcas brasileiras de suplemento estão prontas para esse novo consumidor?
Perguntas frequentes
O que a FDA mudou sobre a testosterona?
Em fevereiro de 2025, a FDA determinou mudanças de rótulo para todos os produtos de testosterona nos Estados Unidos, removendo do alerta principal a menção ao risco cardiovascular. A decisão se baseou no estudo TRAVERSE, com 5.246 homens, que não encontrou aumento de infarto ou AVC na comparação com placebo. Avisos sobre pressão arterial e a restrição de uso para hipogonadismo apenas relacionado à idade foram mantidos.
O SUS oferece testosterona?
Sim, desde a incorporação publicada em junho de 2026, o SUS passou a oferecer testosterona injetável em três apresentações para homens e adolescentes com hipogonadismo hipogonadotrófico orgânico, condição diagnosticada de deficiência hormonal. A rede pública tem até 180 dias para organizar a oferta. Não se trata de reposição hormonal estética ou de performance.
Qual o tamanho do mercado de suplementos no Brasil?
O setor faturou cerca de R$ 7,6 bilhões em 2025, com crescimento aproximado de 15% no ano, e projeta chegar a R$ 13,8 bilhões até 2030, segundo dados da Brasnutri. Uma pesquisa da ABIAD aponta que 59% dos lares brasileiros já consomem algum suplemento alimentar.
Por que a Nestlé lançou a marca Vital no Brasil?
A Nestlé escolheu o Brasil como primeiro mercado do mundo para a Vital, marca de suplementos para o público 40+, com investimento de cerca de R$ 203 milhões e produção em Araçatuba (SP). A aposta confirma a tese do artigo: o consumidor maduro é o próximo grande ciclo do setor de suplementos, e as gigantes globais já estão se posicionando.